HOpVest #9 – História da África: A Núbia

Introdução

O que ficou conhecido como Núbia é uma região do continente africano que está entre o Rio Nilo e o Mar Vermelho, ou seja, parte do território que compõe o que costumamos chamar de África Nilótica. Assim como “Mesopotâmia”, falar da Núbia como se fosse um reino, é um erro. A região abrigou diversas sociedades, e sem sombra de dúvida, a mais antiga e famosa é o Reino Kush.

É importante fazer essa ressalva para pensarmos a África como um continente com história própria. Eu sei que parece estranho reivindicar História para alguém, mas nesse caso, deixar evidente a necessidade de historicizar a África vai além de um jogo de palavras, é um compromisso ético com a verdade e com os direitos humanos.

Por muito tempo a África não tem sido apenas ignorada, mas sim apagada, silenciada, e com muita violência é negada sua condição de humanidade. Uma das formas de alcançar esse objetivo é precisamente retirando de uma raça a sua história. Gosto sempre de pensar nas palavras de Sueli Carneiro, sobretudo quando ela discorre sobre o Epistemicídio (palavra que vem do grego: Epistamai = “Conhecer”, e do Latim: cídium = “ato de quem mata”), ou seja, o assassinato intelectual dos povos pretos.

É por isso que estudar história africana é um desafio, ao mesmo tempo que uma Revolução. Essa afirmação encontra amparo quando pensamos que o Brasil é um país, essencialmente preto e pardo, que tem 521 anos de história eurocentrada. Desse tempo, pelo menos desde 1530, diversas nações africanas foram subjugadas, desumanizadas, escravizadas e assassinadas para alimentar o tráfico de seres humanos no atlântico, em nome do lucro europeu, e mesmo assim, apenas em 2003, com a Lei 10.639/03, passamos a ter a história desses povos contadas em sala de aula.

A força da lei foi a única coisa capaz de colocar em nosso currículo a história de  povos perseguidos e massacrados por séculos, e que ainda hoje sofrem o reflexo de toda a monstruosidade perpetrada contra eles. A pobreza tem raça, a segregação social tem raça, a ascensão profissional tem raça. Nossa sociedade ainda mantém as violências contra os povos pretos. De uma maneira ou de outra perpetuamos a alma colonizadora, seja no chicote do senhor de engenho dos séculos anteriores, seja no cassetete da polícia nos dias de hoje.

De nada vale falar sobre os povos africanos e continuar reproduzindo a imagem – exótica – tão difundida e imputada a povos não euro-espelhados. Por isso, precisamos entender a história dos povos africanos a partir de suas próprias realidades, pois, a imposição dos costumes e práticas dos brancos colonizadores foram e ainda são a desgraça de um dos berços da humanidade. Pouco sabemos sobre esse rico continente, o que chega a nós é o que a Europa diz sobre a África.

O que foi então a Núbia?

O que conhecemos hoje como Sudão, Sudão do Sul e parte do Egito, constituía a região da Núbia. Sabemos que as sociedades nilóticas tiveram como pré-condição para sua sedentarização a presença do Rio Nilo. Esse rio corta quase ao meio o continente africano. Para vocês terem uma ideia, do Delta do Nilo, no Mar Mediterrâneo, até o Lago Vitória, no Quênia, temos a incrível extensão de 6570 quilômetros.

É difícil precisar com certeza quando essa fixação às margens do Nilo aconteceu, sobretudo no caso do continente africano, pois, há evidências de fósseis com quase dois milhões de anos na região de hominídeos ancestrais aos Homo Sapiens. Para agravar, o Nilo chega até o Lago Vitória, que se está no Vale do Rift, uma das regiões do planeta que seguramente se encontram os mais antigos vestígios de espécies do gênero Homo.

No entanto, ainda que não possamos precisar quando houve de fato a sedentarização daqueles povos, é bem provável que as sociedades da Núbia começaram a formar cidades cerca de 4mil anos antes de Cristo. A dinâmica foi parecida com o que aconteceu no Egito, pequenos grupamentos humanos formaram tribos, depois vilas, aldeias e por guerra ou uniões, acabaram formando cidades.

Os Kushitas

No segundo milênio antes de Cristo, uma das sociedades que ali vivia, os Kush, conseguiu unificar as cidades sob um único comando. Assim a cidade de Napata passou a ser a capital do Reino Cuxita. A partir de então estabeleceram um longo e próspero sistema de trocas com o Egito, o que lhes permitiu grande desenvolvimento. Napata enviava para o Delta do Nilo o ébano, marfim, óleos, peles, incenso e ouro. O desenvolvimento cuxita incomodou o Egito. 

Por volta de 1500 a.c o Egito invadiu a cidade de Napata e manteve uma dominação que durou quase 500 anos. Nesse tempo, os Kush sofreram bastante influência dos egípcios, e as principais fontes desse período são, precisamente, herdadas dos egípcios.

A desestruturação política do Egito, com disputas internas e invasões estrangeiras constantes acabou fortalecendo os Kushitas, que expulsaram os egípcios da região, por volta do ano 1000 a.c. 

Mas as relações entre Cuxitas e Egípcios não param por aí!

Cuxitas dominam o Egito!

O Império Kush avançou suas fronteiras e marchou sob o Egito. Por mais de 50 anos estabeleceram um governo que causa curiosidade em muitos egiptólogos: a 25° Dinastia de faraós, os “Faraós Negros”. 3 faraós núbios governaram o Egito até a invasão assíria no século VII a.c. 

O fim do Reino de Kush

O Reino cuxita perdurou pelo menos até o século IV d.c, nessa época já haviam transferido sua capital de Napata para Méroe, quando foram invadidos e dominados pelos Axum. Falaremos sobre essa outra civilização nas próximas aulas.

Conclusão:

O legado cultural dos Kush está sendo cada vez mais estudado. São muitas fontes negligenciadas ao longo de séculos de história dominada pela cultura europeia. O processo de descolonização africana e as independências no continente ao longo do século XX foram importantes fatores para a mudança de olhares sobre a história africana e motivaram diversas nações a buscar seu passado.

Para nós, no Brasil, é de extrema importância conhecer o passado das civilizações africanas, para assim tentarmos nos livrar da visão colonial que ainda perdura sobre a história negra. O continente africano teve uma densa e magnífica história que não pode mais ser escondida por muros de exclusão da memória.

O Silêncio é também uma violência!

1.

(UECE-CEV – 2010) O Reino de Kush foi o berço onde se desenvolveram importantes civilizações e culturas. Teve um papel determinante como elo cultural entre diferentes povos do Mediterrâneo e aqueles da África subsaariana. Dentre suas características destaca-se o modo como o rei era eleito e o papel da mulher na política. Assinale a afirmação verdadeira.
 
 
 
 

2. (CESPE – 2017) No que concerne a características e dinâmicas do Egito e do Reino de Kush, assinale a opção correta.

 
 
 
 
 

Questão 1 de 2