Golpe ou Revolução? – Ditadura Militar

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Golpe ou Revolução? Por muitas vezes nos deparamos com esse questionamento. No entanto, faz sentido chamar a tomada de poder de 1964 de revolução? Cabe melhor o termo “Golpe”? Confira nossa contribuição sobre o tema!

“Golpe” ou “Revolução”: Que diferença faz?

Se você é professor/professora de história e estava dando aula sobre o golpe que levou o Brasil à ditadura militar de 1964, principalmente se foi no Ensino Médio, com certeza você se deparou com um estudante (e geralmente é homem mesmo) questionando “mas não foi golpe, foi revolução”…

Sei que bate um desânimo ver como a extrema direita conseguiu contaminar os meios de informação ao ponto de causar confusão conceitual para se valer de uma narrativa que justifique suas atrocidades. Ao mesmo tempo é exigido profissionalmente que saibamos justificar a opção das palavras “Golpe” ou “Revolução”.

As palavras realmente tem poder, e essa afirmação aqui nada tem a ver com religiosidades. Apenas podemos constatar que a força da narrativa é um elemento importante para a manipulação da memória coletiva por sujeitos (ou grupos) e é por isso que aos poucos, foi introduzido, timidamente, a passos curtos, questionamentos como esse: foi Golpe ou Revolução?

Até pouco tempo o uso de “Revolução” para designar a ruptura institucional promovida por militares e parte da elite brasileira em 1964 era um costume restrito a um pequeno círculo militar, sobretudo pelo Clube Militar. Já em 2018, até mesmo o Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffolli, relativizou o conceito afirmando que “hoje eu não me refiro mais nem a golpe e nem a revolução de 1964. Eu me refiro a movimento de 1964”.

As palavras do Ministro Dias Toffolli merecem atenção, pois, quando um Ministro do STF, alguém que presidia a Suprema Côrte, que em tese é o instrumento garantidor da Constituição não reforça a importância do uso da palavra Golpe para os eventos que aconteceram em 1964, isso sinaliza que nossa sociedade admite a interrupção da democracia e da constitucionalidade como um instrumento legítimo do sistema. 

Com o presumido avanço democrático, a liberdade de pensamento incomodou a elite militar que achava por bem, dar por encerrado o assunto “ditadura militar”, mas com a Comissão Nacional da Verdade (CNV), os decrépitos estrelados, emplumados em seu verde oliva, não suportaram diversas verdades virem à tona, ao mesmo tempo em que uma ex guerrilheira, torturada pelo sistema de atrocidades da ditadura chegava ao Planalto. 

O trabalho dos ideólogos neofascistas se avolumaram ao longo dos governos Lula e Dilma pavimentando um caminho para a ascensão do autoritarismo e do desprezo pelos mais vulneráveis economicamente ao ponto de tais ideólogos perderem o pudor e declarar todo seu ódio à democracia, discurso que teve seu ápice com o Impeachment de Dilma Rousseff, muito bem representado quando Jair Bolsonaro declarou “Em memória de Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff”.

O Coronel Ustra foi comandante do Destacamento de Operações e Informação e Centro de Operações de Defesa Interna DOI-CODI e é o mais famoso torturador e assassino da Ditadura Militar, sob seu comando, dezenas de mortos e desaparecidos foram denunciados e muitos casos foram solucionados apenas com os trabalhos da CNV. 

É através de gente como Olavo de Carvalho, Hamilton Mourão, General Augusto Heleno, o Movimento Brasil Livre, Brasil Paralelos e tantos outros canais de desinformação que proliferou-se a partir do projeto de extrema direita Ternuma (Terrorismo Nunca Mais) a ideia do golpe enquanto Revolução e por conseguinte, a sua legitimidade e em certa medida, até mesmo sua constitucionalidade.

O Episódio 3 do HOp tenta discutir o conceito de Revolução e levar a todas e todos as ferramentas necessárias para combater discursos como o dos militares golpistas sobre a ditadura. As palavras são carregadas de sentido e é importante que a história dos conceitos faça seu papel para que a memória coletiva não se deixe levar pelas narrativas promíscuas, mentirosas e manipuladoras como as de ideólogos neofascistas que levaram Jair Bolsonaro ao poder.