Sim, Bolsonaro: o professor trabalha – e muito – durante a pandemia

Não há dúvidas que a escola é um dos ambientes mais propícios para a propagação do Sars-cov-2. São centenas, em alguns casos milhares de estudantes compartilhando o mesmo espaço em dois ou três turnos, com uma rotatividade muito grande de profissionais, colaboradores e estudantes todos os dias.

Artigo de opinião para o periódico Brasíliaovivo em 21/09/2020

Por Arnaldo de Castro 

 

A rede pública do Distrito Federal conta com cerca de 400 mil crianças e adolescentes ocupando diariamente esse espaço. Mesmo em tempos de normalidade, as queixas sobre a condição do espaço físico das escolas são rotineiras: não têm espaço suficiente, contam com salas super-lotadas e não apresentam condições adequadas de higiene (banheiros quebrados, pouca disponibilidade de torneiras e bebedouros, falta recurso para materiais de limpeza e reformas, dentre tantas outras falhas).

Em meio a essa realidade, eis que eclode a mais complexa crise sanitária do século XXI, a Pandemia da Covid-19. Praticamente a totalidade dos países do globo foram afetados e medidas de restrição de circulação de pessoas foram tomadas em todas as partes. No Distrito Federal, acertadamente, o governador Ibaneis Rocha suspendeu as atividades escolares assim que tomou conhecimento da presença do vírus na Capital Federal. Isso foi fundamental para a contenção da curva de contaminação. Por certo, de maio a setembro, o único setor que cumpriu, rigorosamente, as recomendações de isolamento foram as escolas.

Diante essa situação, fica óbvio que a suspensão das aulas presenciais é uma medida sanitária mais que necessária, é fundamental para a contenção da contaminação da população pelo Sars-Cov-2. O que causa perplexidade não é a necessidade do isolamento nas escolas, mas sim a tentativa de desmoralização da categoria dos e das profissionais da educação por parte de empresários e do governo.

Em junho, foi publicada uma postagem no facebook (posteriormente apagada) na conta pessoal do Presidente do sindicato das Escolas Particulares do Distrito Federal, Álvaro Moreira Domingues Júnior, afirmando que as e os professores são covardes por apoiarem o isolamento. Nessa postagem, não deixou de atacar, principalmente, as escolas públicas.

Presidente da república, Jair Bolsonaro, fala em live publicada em suas redes sociais. Imagem: reprodução

Em editorial publicado no dia 17 de setembro o jornal de circulação nacional Folha de São Paulo, afirmou que “governantes devem afastar-se da tentação política, em ano eleitoral, de manter as escolas fechadas para não desagradar sindicatos de professores”, nessa publicação, inescrupulosamente, o jornal inverte a culpabilização, tirando do governo e da própria pandemia a responsabilidade pelo isolamento e jogando para os sindicatos de professores a culpa pela continuidade da suspensão das aulas presenciais. Mentindo descaradamente, a Folha de S. Paulo afirmou que as experiências internacionais indicam que a volta às aulas não aumentou a curva de contágio.

Por fim, em live (veja o trecho), o Presidente da República, Jair Messias Bolsonaro não deixou de expor sua opinião. Criticou a suspensão das atividades escolares (ainda que sem fundamentação científica alguma), e em consonância com o empresariado e o jornal Folha de São Paulo, desferiu ataques contra os sindicatos, e na tentativa de retirar de si a responsabilidade pelas mais de 130 mil mortes no país e os efeitos negativos para a economia brasileira por causa das medidas insuficientes de contenção da crise pandêmica, culpabilizou profissionais da educação pelo prejuízo a crianças e adolescentes em relação ao ano letivo.

Não é novidade que a direita brasileira tem professoras e professores como inimigos. Isso ficou ainda mais explícito com o avanço de discursos de ódio difundidos em larga escala por aplicativos de mensagens instantâneas (sobretudo o Whatsapp) e a ampla campanha de desmoralização de educadores e servidores públicos empreendidas pelo Governo Federal. O Ministro da Economia Paulo Guedes, por exemplo, não poupa adjetivos, na mais conhecida declaração sobre servidores públicos feita pelo ministro, os chama de parasitas.

Ministro da Economia, Paulo Guedes, em conferência do BNDES. Imagem: Presidência da República

A realidade é outra! Professoras e professores tem se dedicado inteiramente e concentrado esforços contínuos para minimizar os danos causados pela suspensão das atividades escolares presenciais.

No Distrito Federal, desde o retorno em regime de teletrabalho, tanto a população, quanto profissionais da educação se sentem abandonados à própria sorte. Sem qualquer suporte técnico para o teletrabalho, profissionais se desdobram, transformam suas casas em mini estúdios de gravação de vídeo, usam seus próprios recursos e aprendem a lidar com ferramentas jamais incentivadas (seriamente) pela Secretaria de Estado e Educação do Distrito Federal, como a plataforma virtual Google Sala de Aula.

Os cursos de formação foram elaborados e disponibilizados de última hora pela Subsecretaria de Formação Continuada dos Profissionais da Educação (EAPE) e entendendo a emergência da situação, professores e professoras passaram a dedicar horas de trabalho, muito além das 40 horas semanais estabelecidas pelo regime de contratação do serviço público, no intuito de se reciclar, aprender e desenvolver novas metodologias de ensino e aprendizagem.

É bom ressaltar que as equipes gestoras das unidades escolares tem sido enfática, pedindo encarecidamente para que profissionais da educação não excedam o horário de trabalho, mas é impossível produzir as atividades, manter a burocracia em dia, aprender novas tecnologias e acompanhar o ensino e aprendizagem dos e das estudantes dentro do regime normal de 40 horas de trabalho. Qualquer profissional da área audiovisual sabe que 10 minutos de produto final em vídeo exige horas de gravação e edição, para tanto, é necessário computador com boa capacidade de hardware e conhecimento de softwares que não são rotineiros na utilização diária do usuário comum de informática. Imagine aprender isso em poucas semanas e tendo uma defasagem tecnológica incorrigível devido a falta de recursos para obtenção de equipamentos!

Professora ministra teleaula para alunos do Colégio LaSalle de Águas Claras – Imagem: Phelipe Terceiro / Brasiliaovivo

É com isso que lidamos, é essa a realidade do teletrabalho!

É desanimador, desrespeitoso e incrivelmente cruel a campanha de desmoralização da atividade docente. Não por acaso, é uma das profissões que mais causa desinteresse entre aquelas e aqueles que buscam uma formação superior. Estamos em um ringue, um campo de batalha, uma guerra aberta e assimétrica, é um combate entre Davi e Golias, o sindicato é nossa Funda e temos nossas 5 pedras no alforje: a coragem de não nos rendermos, a vontade de desempenhar nossas atividades com excelência, o afeto e reconhecimento de nossa importância pela população, a solidariedade de responsáveis, pais, mães e estudantes e a coesão da categoria em torno da nossa entidade representativa.

Em geral, a categoria de professores é contra o retorno das atividades presenciais, não por preguiça de trabalhar, pois, nossas atividades no teletrabalho são mais exaustivas e demandam mais tempo nesse regime de prestação de serviço. Temos compromisso com a defesa dos interesses de nossos e nossas estudantes, queremos preservar a saúde e a vida, estamos preocupados e preocupadas com as famílias que estarão em risco. Entendemos que nenhum prejuízo é maior que perder a vida. Muitas perdas podem ser reparadas, a morte é irreversível.

É sufocante ver os grandes meios de comunicação, com seus interesses privados, apoiarem o retorno das atividades presenciais. A única forma de combater a narrativa que criminaliza professores e professoras é a união da categoria. Não podemos deixar que o interesse financeiro de uma minoria coloque em risco milhões de famílias, é inaceitável que o lucro de poucos se sobreponha à vida da maioria.

Precisamos lutar pela defesa da Educação, da Vida, da Atividade Docente e por cada Professora e cada Professor do Brasil! Em tempos de normalidade, essas palavras seriam óbvias, mas nesse momento, em que a sociedade está sendo corroída pelo vírus do ódio, a sensatez se torna uma ferramenta revolucionária.

Este artigo foi publicado originalmente em:

Sim, Bolsonaro: o professor trabalha – e muito – durante a pandemia

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