Feliz dia do Professor?

Artigo de opinião para o periódico Brasíliaovivo em 16/10/2020

Por Arnaldo de Castro 

A questão da educação é um profundo problema brasileiro, isso não é novidade para ninguém e a imposição de isolamento social em função da Pandemia do Sars-Cov-2 expôs fraturas inconvenientes e que atingiram toda a sociedade. No Distrito Federal, nossa atual condição motivou olhares e atenções jamais recebidos pelos professores e professoras (para o bem e para o mal). Quando recebo congratulações dia 15 de outubro, aceito com carinho e atenção, mas confesso que também desperta um mal-estar.

O incômodo latente não chega a ser uma repulsa, mas um grito preso na garganta. “Feliz dia dos professores” é uma frase quase exigida socialmente, dá a impressão de reconhecimento e agradecimento, porém, acredito que a homenagem mais tem conexão com as lutas empreendidas cotidianamente pela categoria, que propriamente pela suposta devoção e dedicação ao ensino e aprendizagem, em um exercício de sacerdócio, de quase martírio em sala de aula. Contudo, essa reflexão poucas vezes acompanha a parabenização.

Parece pouco plausível que nos sintamos felizes diante a realidade em que vivemos. A categoria de professores e professoras sofre ataques injustos 364 dias por ano, é cobrada pelo baixo desempenho de estudantes e ameaçada com destruição de direitos, em um momento de galopante avanço neoliberal. Mas no dia 15 de outubro, como uma bandeira branca de trégua, as críticas são provisoriamente suspensas, para criar no imaginário social um tipo ideal: o mestre do saber capaz de fazer acontecer o aprendizado, independentemente, da situação social dos e das estudantes, sem investimento em sua atividade profissional, sem formação continuada, sem salários adequados, sem meios materiais para modernizar as atividades e sem o respeito das autoridades.

Darcy Ribeiro nos alertava que a “crise da educação brasileira não é uma crise, mas sim um projeto”. Essa frase sintetiza, entre tantas questões, uma que merece reflexão: os ataques que profissionais da educação vem sofrendo fazem parte de um projeto ideológico e o pilar central dele é a difusão de mentiras e manipulações de informações. O compromisso da educação, em linhas gerais, é com o aprendizado pautado na racionalidade, no caso específico da história, Marc Bloch dizia que o ofício de historiador exige uma completa submissão à verdade. É no mínimo incoerente ser parabenizado por quem aceita e defende tal projeto político.

Como ser “feliz” tendo que enfrentar declarações constantes de que “professor não quer a volta às aulas por que não quer trabalhar”? Essa alegação não partiu de uma trabalhadora indignada com a impossibilidade de deixar seu filho sozinho para trabalhar, ela veio do Presidente da República Jair Messias Bolsonaro. Largados à própria sorte, os e as profissionais da educação tem enfrentado dificuldades múltiplas para provocar o máximo de aprendizado possível em uma situação adversa como a que enfrentamos (isolamento físico) e o mandatário, do conforto de seu palácio, com banquetes à mesa, imputa aos professores uma responsabilidade que é estritamente dele.

O ministro da educação Milton Ribeiro, também poucos dias atrás, afirmou que “Hoje, ser um professor é ter quase que uma declaração de que a pessoa não conseguiu fazer outra coisa”, essa é a palavra oficial da pessoa que deveria ser responsável por pensar a educação para o país e para piorar não é uma posição isolada, os três escolhidos para chefiar a pasta (e que por algum tempo ocuparam o posto no governo Bolsonaro) tem inclinações semelhantes, o que denota um projeto, não apenas opiniões particulares de um ou outro extremista.

É possível ser feliz com propostas como a Reforma Administrativa que vai perseguir Professores e Professoras? É possível aceitar congratulações quando o Ministro da Economia propõe a desvinculação das receitas do Fundo Nacional para o desenvolvimento da Educação Básica (FUNDEB)? Como nos desejam “feliz dia do professor”, mas vociferam contra a luta de uma categoria que está há quase uma década sem reajuste salarial (veja bem, não é aumento salarial e sim reposição inflacionária)?

O melhor jeito de demonstrar carinho e afeto por aqueles e aquelas que foram centrais na sua formação acadêmica e profissional não é enviar mensagens no dia 15 de outubro (e reafirmo, recebemos com carinho essas mensagens), o que precisamos é de reconhecimento real, necessitamos do apoio de todas e todos para que a valorização da educação e o respeito à categoria seja o eixo central da nossa sociedade. Sendo assim, usemos o dia 15 de outubro para levantar discussões acerca dos avanços e retrocessos empreendidos na educação brasileira.
Aos colegas e às colegas de profissão, almejo muita força e determinação em suas atividades, mas sobretudo, desejo consciência e que se reconheçam enquanto parte da classe trabalhadora.

Diz “feliz dia do professor”, mas vota em Jair Bolsonaro.

Enfim, a hipocrisia…

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Feliz dia do Professor?

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